Mensagem do Dia

14/11/2015 - A casa da minha infância.

A casa da minha infância não era bonita nem feia, era mulher parideira, onde cabiam adultos, crianças, gatos, cachorros e papagaio. Um colo imenso que recebia de braços abertos corpos exaustos da fadiga na roça, crianças cansadas das brincadeiras e correrias pelos campos.
Sua pele escura, depois de algumas de mãos de tinta, pinceladas com muito esmero por meu pai, tornou-se verde. Seus olhos esbugalhados sempre abertos para receber a luz do sol e arejá-la eram marrons, da mesma cor as duas bocas enormes. A da cozinha sempre aberta, a da sala só para receber visitas ou em dias de festa. Seus cabelos de telhas vermelhas já encaniçadas deixavam a mostra a passagem do tempo. Não era mais moça a minha casa querida, mas tinha o sorriso largo, jeito de quem era feliz.
Havia flores, verduras e legumes bordados em suas saias. Do lado direito o colorido das rosas, amores- perfeitos, margaridas e tantas outras flores miúdas costuradas no tecido esgarçado da terra vermelha. Do lado esquerdo, as alfaces, couves, temperos verdes, e tantos outros sabores e cheiros.
Pelo meu olhar ainda menino, um tanto magra demais, as pernas compridas, demasiadamente finas, parecendo vergarem a qualquer vento, deixando-a em desamparo.
Amei em silêncio a casa da minha infância. Amei-a como se fosse sua filha. Ela tinha um cheiro inigualável, de pai e mãe, de comida italiana, de vinho no porão e de pão quente aos sábados pela manhã. Gostava de olhá-la de longe, admirar sua cara bonachona de quem acalenta e espera com o colo quentinho, pronto para aquecer seus filhos nas noites geladas da minha meninês.
Deixei-a cedo demais. Precisei despedir-me ainda menina. Ela não nascera próxima dos colégios que me receberam e me mostraram outros mundos, outras formas de vida e de viver. Morei em outras casas com outras gentes, que pouco me recordo, apenas um ou outro detalhe frio e distante.
Minha amiga de tábuas largas permaneceu à margem da estrada de terra vermelha, cercada de campos, flores, frutas e plantações, ouvindo o murmúrio das águas do rio Fortaleza, o cantar dos pássaros, o mugido dos animais e do vento minuano a soprar em sua cabeleira. As colinas e os campos verdejantes a ladeavam. Suas únicas vizinhas eram a escola amarela e a igrejinha alaranjada fincadas nas terras do meu pai, mas ainda que não houvesse outras moradias próximas não me parecia solitária, eu é quem era. Ao partir cedo tornei-me uma menina só, mas ao voltar para seus braços sentia-me segura, amparada por àquela casa mãe que me acolhia repleta de afeto.
A passagem do tempo inexorável e imutável foi arranhando sua pele, castigando-a e esvaziando seus cômodos. Aos poucos não se ouvia algazarra de criança, nem planos, nem gargalhadas, nem chimarrão e causos de final de tarde. Alguns partiram mais cedo, outros se demoram um pouco mais, até que um dia um caminhão estacionou ao seu lado e levou tudo o que era seu.
Voltei mais tarde, muito mais tarde, procurar pela amiga que abrigou meus sonhos, fantasias, risos e lágrimas de menina. Quem sabe ao encontrá-la me encontraria. Sentindo um aperto na garganta, transpus a curva que me separava dela, mas à distância fui percebendo que não era ela quem estava lá na beira do caminho que tanto caminhei. Parada em frente ao portão chorei por nós duas. O tempo, há o tempo! Levou-nos embora de nós.

(Elizete Conte Tondello)

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