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MENSAGEM DO DIA

28/06/2010 - Vocação para se machucar

(texto adaptado de artigo de Martha Medeiros)

Obsessão e descontrole são doenças sérias e merecem respeito e tratamento, mas batizar isso de “amar demais” é uma romantização e, de certo modo, um desserviço às mulheres e aos homens, pois fica implícito que amor tem limite, quando na verdade amar nunca é demais. O amor é um sentimento que geralmente provoca ciúme e insegurança, é verdade, mas tem uma essência alegre e prazerosa, é motivador, estimulante e conduz a uma evolução do casal – se estacionar e conduzir a uma separação, é porque se transformou em um sentimento improdutivo.

O livro de Marilia Gabriela, "Eu que Amo Tanto", mostra, com um misto de delicadeza e perplexidade, exemplos de mulheres com autoestima abaixo de zero devido a rupturas familiares que deixaram cicatrizes abertas, escancaradas. Os níveis de insegurança dessas mulheres são exagerados, amor é confundido com possessão e a perda de controle é total: elas se machucam, e se machucam mais, e mais, e acabam por viciar-se não no amor, e sim na dor.

É uma patologia, mas como se cura? Até onde sei, com psicoterapia e, se o caso exigir, com medicamentos. Mas essa espécie de terapia em grupo promovida pelo Mada não deixa de ser um paliativo para que essas mulheres não se sintam tão incomuns, até porque não são. Ao ler esses relatos, num primeiro momento, provocam estranheza e piedade (“como alguém chega a esse ponto”?), mas, no fundo, esse ponto não é tão inalcançável a nós, que amamos “na medida”. O amor que sentimos não é algo estanque e independente: as nossas carências, fantasias e idealizações são projetadas em todas as relações que vivenciamos, e sorte a nossa se os desajustes forem do tipo “normais” e se mantivermos um mínimo de consciência que nos sinalize a hora de cair fora.

Abrir mão de um envolvimento amoroso é uma espécie de morte. Aceitar o fim exige um mínimo de estrutura emocional, que é variável de pessoa para pessoa. Alguns tiram de letra, a maioria sofre e se recupera, e os menos afortunados tornam-se dependentes crônicos da autodestruição.

Não diria que esses últimos amam demais. Acho que amam pouco a si mesmos.